quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Conversa com Iracilda Toledo, presidente da Associação de Familiares e Vítimas da Chacina de Vigário Geral, Rio de Janeiro

No dia 11 de outubro de 2007, Iracilda Toledo, 50 anos, dois filhos e um neto, vai viajar do Rio de Janeiro a Brasília com 23 mães de vítimas de chacinas, mães de desaparecidos, e de uma nova categoria: dos “arrastados por ônibus”. A viagem tem como destino o Ministério da Justiça. O grupo pretende se reunir com o ministro Tarso Genro para solicitar que sejam formados núcleos de atendimento específico às vítimas de violência em cada Estado, com ouvidoria, policiais e outros profissionais “honestos”.
“Para que mais um grupo, se já existem comissões de direitos humanos na Câmara, no Senado, além da Secretaria Especial de Direitos Humanos, e tantos órgãos que deveriam atuar nesta área?”, perguntei a ela. “Ninguém confia em mais nada”, respondeu.
Conversei com Iracilda numa manhã nublada da Cidade Maravilhosa, quando estive por lá em busca de outra reportagem. Coincidiu que Iracilda estava indiretamente envolvida na história cujos detalhes eu fui checar no Rio de Janeiro. Pedi-lhe que me contasse como se tornou uma ativista das causas sociais. Esta é a sua versão da história que ficou tristemente conhecida como Chacina de Vigário Geral:
Comecei o movimento em 1993 quando perdi meu marido na chacina. Fiz do luto a luta e nunca mais parei. Abandonei casa, filhos, família. Se tivesse parado naquela época, meu arrependimento seria maior. Só vou parar quando o país estiver em paz mesmo, não houver mais crimes, assaltos, e se puder andar tranqüilamente nas ruas. Já abracei outros casos: das mães do Maracanã, da Cinelândia, do Via Show, dos Queimados de Nova Iguaçu. Vai ser difícil eu parar.
A Chacina de Vigário Geral foi uma retaliação que a polícia fez em 29 de agosto de 1993. Um dia antes, quatro policiais haviam sido mortos. Falaram na época que os policiais haviam sido mortos por traficantes da favela, mas tudo ficou no ar.
No dia 29, policiais entraram em Vigário Geral e mataram 21 trabalhadores. Meu marido era chefe da estação da Rede Ferroviária Federal– trabalhava ali fazia 20 anos. Uma das sobreviventes perdeu a família toda: pai, mãe, cinco irmãos, uma cunhada. Só as crianças – cinco – sobreviveram, e ela ficou com todas para criar.
Eu estava em casa. Por incrível que pareça, na hora da chacina havia me dado um sono profundo. Geralmente eu ia atrás do meu marido, mas naquela noite não fui. A chacina começou por volta das 23h30min.
Naquele dia, houve o jogo Brasil X Bolívia, para eliminação da Copa. O Brasil venceu por 6 a 0. Meu marido assistiu ao jogo em casa com dois amigos, porque ali tinha uma tevê grande, a cores. Eu disse que ia à igreja, e ele foi para o bar, com o filho de 12 anos, comprar cigarro. Às 23h10min, chamei meu filho para voltar para casa – tinha que tomar banho e dormir para ir à escola no dia seguinte. Se ele tivesse ficado, teria morrido também...
Acordei à meia-noite, com meu sogro, que é presidente da Associação dos Moradores de Vigário Geral, chamando meu marido porque havia acontecido uma chacina no Bar do Joaci, estavam todos mortos. Foi quando despertei para minha luta por Justiça.
A força veio primeiro de Deus, depois dos filhos. No último dia 29 de agosto, quando fez 14 anos, meu filho disse que queria tanto ver o rosto do pai, que já não lembrava mais dele. Não é justo alguém tirar a vida do outro de maneira nenhuma. Para isso existem leis. Mataram 21 trabalhadores e uma família inteira.
De lá para cá, vi o quanto se precisa lutar para diminuir a violência, a injustiça, tudo, porque hoje não há mais justiça. Há inquéritos parados há nove, 10 anos. Precisa ter alguém para investigar a fundo. Pessoas sérias, porque quem vai denunciar tem medo.
O caso de Vigário Geral foi emblemático: 53 policiais foram denunciados, 33 autuados e responsabilizados no processo. Dez foram absolvidos. Seis morreram antes de irem a julgamento. Sete estão presos.
Mas na maioria das vezes os casos não vão até o fim, porque os familiares desistem, porque são tratados mal, ouvem que o filho era bandido, são ameaçados. Sofri muita represália, e fiquei fora do Rio de Janeiro durante 11 anos
. ”
A história de Iracilda não pára aí. Pergunte a ela detalhes sobre as outras chacinas – ela vai contar como se passaram. Pergunte a ela sobre as indenizações que o Estado começou a pagar durante o governo de Garotinho, ela também sabe. Pergunte a ela quem são os policiais honestos com quem pode contar, ela diz.
No final de nossa conversa, antes de partir, Iracilda e eu comentamos a notícia do jornal O GLOBO de 25 de setembro: Polícia prepara ação para pacificar o Alemão. Na nota de abertura de página, a jornalista Ana Cláudia Costa contava que antes de o Complexo do Alemão ser alvo do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o secretário nacional de Segurança, Antônio Carlos Biscaia, havia determinado que o conjunto de favelas passasse por uma ação “pacificadora para erradicar a força armada”. Mas o que mais nos chamou a atenção na nota foi o parágrafo em que o senador Marcelo Crivella (PRB) dizia que ninguém mais morreria de bala perdida na favela. A solução encontrada: construir casas com material mais resistente, à prova de balas. “Vou ligar para minha amiga que mora lá e dizer que agora, sim, vai estar protegida”, ironizou Iracilda, pouco antes de posar para uma foto na frente da Cinelândia, no Rio de Janeiro, onde acontece a maior parte dos protestos que ela e as outras mães organizam. Em cada um, chegam a reunir mais de 300 mães.

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