segunda-feira, 6 de abril de 2009
Redutores de Preconceitos
Em 2000, acompanhei os Redutores de Danos de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Entre os redutores, havia usuários e ex-usuários de drogas injetáveis. Parte destas pessoas retratadas no vídeo já morreram. O trabalho consistia inicialmente na troca de seringas usadas por novas, para evitar o compartilhamento e a propagação de doenças como hepatite e Aids. Mas era mais do que isso - ajudava as pessoas a se organizarem, enfrentarem medos, preconceitos, dores, e as estimulava ao auto-cuidado e a buscarem tratamento.
A quem interessar: a Associação Brasileira de Redutores de Danos (Aborda) pode dar mais informações sobre os Programas de Redução de Danos hoje no Brasil. Veja no site http://abordabrasil.blogspot.com/
Augusto Carneiro - o vídeo
Este vídeo foi realizado em 2007, como uma homenagem ao ambientalista Augusto Carneiro. Não é um vídeo profissional, mas ajuda a resgatar um pouco da história de Carneiro e das origens do movimento ambientalista de Porto Alegre, Rio Grande do Sul.
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
Cidadania
"PÔ, para ser cidadão não é mole..."
(Tonico, agente da Redução de Danos)
Filmado em 2000, o documentário Redutores de Preconceitos mostra a realidade dos agentes do Programa de Redução de Danos para Usuários de Drogas Injetáveis. O programa implantado pela Prefeitura de Porto Alegre, infelizmente, perdeu muitos de seus agentes - por questões políticas, por falta de apoio, pela própria Aids.
O princípio da redução de danos para usuários de drogas era de que, enquanto a pessoa não conseguia se livrar da droga, pelo menos poderia evitar a Aids, a hepatite e outras doenças, evitando compartilhar seringas contaminadas pelo vírus HIV.
A fala de Tonico sobre cidadania encerra o documentário. Tonico vive, mas a maior parte dos entrevistados no documentário não está mais aí para dar seu depoimento.
Nestes oito anos, a droga também mudou - é o crack que está detonando mais com crianças e adultos.
Fica o registro da fala de Tonico para pensar o que é esta tal de cidadania.
quarta-feira, 20 de agosto de 2008
Chineza se foi...

"Claro que todas esquinas,
todas praças, o povo em geral, de rua
ainda continua na sua condição.
seja qualquer uma,
mas sempre
sonhando, talvez
com um futuro,
muitas vezes, dramático,
muitas vezes, feliz,
mas infelismente,
ainda há muito para
conquistar, e construir"
(Chineza)
Esta foi a última mensagem que recebi de Chineza. Foi escrita com sua própria letra, numa folha rasgada de caderno, e entregue a mim por Manoel, que durante um tempo trabalhou como “oficineiro da escrita” do Jornal Boca de Rua. Chineza era Marko Khan Su Gria, seu nome indígena.
Chineza escrevia com a alma, e se sua alma era de fato batalhadora e brilhante, continha uma tristeza profunda também.
Durante dias esta mensagem ficou no meu mural, me lembrando do carinho de Chineza e de outras pessoas com quem trabalhei no jornal Boca de Rua. Tirei do quadro de avisos ontem à noite. Hoje à tarde, 20 de agosto de 2008, recebi a notícia da morte de Chineza. Dizem que foi por tuberculose. Era HIV positivo. Pegou o frio da rua neste inverno chuvoso, percorreu o mesmo ciclo de outros tantos moradores de rua: foi para o hospital, saiu, voltou para o hospital, morreu ali. Antes de morrer, ainda disse que queria ir embora desta vida como suas amigas - na rua mesmo. Ela se referia, entre tantas, a Barbie, amiga que morreu alguns meses antes, e que também participou da equipe do jornal.

Chineza era diferente, porque sua alma gritava em palavras que ela mesma escrevia, sem ajuda de ninguém. Era meio índio, rejeitado pela tribo no passado por sua homossexualidade. Volta e meia podia-se encontrá-la machucada por ter apanhado sem motivo algum, ou porque estava simplesmente passando na rua, e parecia suspeita. Ou porque estava sentada num canto onde não era bem-vinda. Chineza sofreu todos os preconceitos que a ignorância humana pode permitir. Foi alvo de todos os estereótipos possíveis em uma só pessoa: pobre, homossexual, morador de rua, índio, drogado, aidético. E enfrentava isso tudo com tanta dignidade e sensibilidade, que envergonharia os algozes da moral alheia. Mas lhe doía muito esse enfrentamento diário.

Não era santa, é verdade. Era gente. Numa das últimas vezes que a vi estava no Gapa/RS apresentando um vídeo em que interpretou a mãe de um jovem atormentado pelo abandono e violência no lar. No making of, Chineza conta sua própria história. Este talento vivia sob pressão e depressão.
Outro dia, de relance, emparelhei por acaso o carro numa sinaleira com uma Chineza estaqueada na calçada, amortecida provavelmente pelo álcool, que a ajudava a amenizar tantas dores e lhe trazia outras. Ficou horas parada olhando o nada, uma cena que contrastava com a vida interna que dava às palavras nas reuniões do Boca de Rua, do Gapa, das oficinas da Casa de Convivência. Chineza vai fazer falta...talvez não tenha percebido o quanto era importante para tanta gente com sua presença nas reuniões, nos vídeos, nas discussões, na rua, na vida.
sexta-feira, 13 de junho de 2008
Histórias que se cruzam ao acaso


Viajar sozinho tem um lado muito bom, que é o de prestar mais atenção nos personagens da vida real que cruzam pelo nosso caminho. Um cumprimento aqui, uma curiosidade ali, um sorriso, e pronto: a gente abre espaço para conhecer outras pessoas e realidades, e tornar os passeios solitários uma rica experiência, cheia de histórias para contar. Foi assim, viajando sozinha entre Belo Horizonte, Ouro Preto e Mariana, em Minas Gerais, que conheci Seu Damião e Fábio. Era um dia de folga de um congresso em BH, em maio deste ano, e aproveitei para desvendar um pouco mais do Estado.
Damião Amaro Lopes tem cabelos brancos e sorriso largo. Para quem não o conhece, vai logo se apresentando: “Sou o homem das sete profissões e das 21 necessidades”. Aos 74 anos, completados agora, em 6 de junho de 2008, ele é um informal contador de histórias da Estação Cidadania de Ouro Preto. Quer pegar o Trem da Vale entre as históricas Outro Preto e Mariana? Pois ninguém cruza o lugar sem deparar com seu Damião. Quando não está contando histórias, está tocando seu acordeão para os visitantes, ou improvisando sons com um violão de cabaça.
As sete profissões não são bem sete, nem as 21 necessidades, cuja lista varia conforme a memória e vontade de ouvir do freguês. Mas quem se importa? Um banquinho improvisado no Vagão Sonoro Ambiental da estação de Ouro Preto serve de palco para seu Damião. Ao lado de Fábio Costa Carvalho, estudante de Música que trabalha como monitor neste vagão que nunca sai do lugar, ele desafia quem tenha melhor lábia.
Conta que nasceu em Juazeiro do Padre Cícero, no Ceará, mas está desde 1955 em Minas. Foi agricultor em Cariri; depois, ferreiro com carteira assinada; mecânico de montagem em uma fábrica de tecido; analista químico, com registro e tudo, e atua como profissional de fotografia há 22 anos. “Conheço fotografia da hora que nasce até quando termina”, tenta explicar. Registra de tudo: de casamentos a fotos da indústria de alumínio. E segue a lista: formado em restauração na Fundação de Artes de Ouro Preto, ajudou a recuperar imagens de telas das igrejas. E, finalmente, artista plástico - garante que tem trabalhos seus enfeitando casas no Exterior.
Fábio já se acostumou com a figura falante no Vagão Sonoro Ambiental onde, de canos e restos de material de trens, se tira sons e música. Ele próprio, que nasceu em Miraí, no interior, ainda mal conhece Ouro Preto. Veio tentar a sorte e o estudo e torce para que volte a obrigatoriedade das aulas de música nas escolas para que tenha mais campo de trabalho no futuro. Enquanto isso, fica ali para receber as crianças e os adultos curiosos que vistam a estação. Seu Damião se acerca quase toda a semana, para se inspirar e inspirar os outros.
O passeio do Trem da Vale custa R$ 18 (quase o preço do ônibus de BH para Ouro Preto) e vale a pena pela paisagem do caminho. Quem quiser saber mais sobre o passeio pode acessar o site http://www.tremdavale.com.br/. É uma opção gostosa para quem estiver de passagem por BH. Num mesmo dia, dá para visitar Ouro Preto, pegar o trem, passear por Mariana, e voltar para a capital mineira.
Damião Amaro Lopes tem cabelos brancos e sorriso largo. Para quem não o conhece, vai logo se apresentando: “Sou o homem das sete profissões e das 21 necessidades”. Aos 74 anos, completados agora, em 6 de junho de 2008, ele é um informal contador de histórias da Estação Cidadania de Ouro Preto. Quer pegar o Trem da Vale entre as históricas Outro Preto e Mariana? Pois ninguém cruza o lugar sem deparar com seu Damião. Quando não está contando histórias, está tocando seu acordeão para os visitantes, ou improvisando sons com um violão de cabaça.
As sete profissões não são bem sete, nem as 21 necessidades, cuja lista varia conforme a memória e vontade de ouvir do freguês. Mas quem se importa? Um banquinho improvisado no Vagão Sonoro Ambiental da estação de Ouro Preto serve de palco para seu Damião. Ao lado de Fábio Costa Carvalho, estudante de Música que trabalha como monitor neste vagão que nunca sai do lugar, ele desafia quem tenha melhor lábia.
Conta que nasceu em Juazeiro do Padre Cícero, no Ceará, mas está desde 1955 em Minas. Foi agricultor em Cariri; depois, ferreiro com carteira assinada; mecânico de montagem em uma fábrica de tecido; analista químico, com registro e tudo, e atua como profissional de fotografia há 22 anos. “Conheço fotografia da hora que nasce até quando termina”, tenta explicar. Registra de tudo: de casamentos a fotos da indústria de alumínio. E segue a lista: formado em restauração na Fundação de Artes de Ouro Preto, ajudou a recuperar imagens de telas das igrejas. E, finalmente, artista plástico - garante que tem trabalhos seus enfeitando casas no Exterior.
Fábio já se acostumou com a figura falante no Vagão Sonoro Ambiental onde, de canos e restos de material de trens, se tira sons e música. Ele próprio, que nasceu em Miraí, no interior, ainda mal conhece Ouro Preto. Veio tentar a sorte e o estudo e torce para que volte a obrigatoriedade das aulas de música nas escolas para que tenha mais campo de trabalho no futuro. Enquanto isso, fica ali para receber as crianças e os adultos curiosos que vistam a estação. Seu Damião se acerca quase toda a semana, para se inspirar e inspirar os outros.
O passeio do Trem da Vale custa R$ 18 (quase o preço do ônibus de BH para Ouro Preto) e vale a pena pela paisagem do caminho. Quem quiser saber mais sobre o passeio pode acessar o site http://www.tremdavale.com.br/. É uma opção gostosa para quem estiver de passagem por BH. Num mesmo dia, dá para visitar Ouro Preto, pegar o trem, passear por Mariana, e voltar para a capital mineira.
quinta-feira, 10 de abril de 2008
Sobre seres humanos e bichos
Em uma das reuniões de que participei outro dia, em que se discutia Integridade – esse sentimento que não se explica, se tem ou não -, veio à tona o tema da proibição das carroças nas ruas de Porto Alegre. A justificativa dos defensores da proibição é proteger os cavalos dos maus-tratos. E seguiu-se uma longa discussão sobre quem são os donos dos cavalos que puxam carroça, por que agem do jeito que agem.
Em vez de proibir, argumentei que, se as autoridades e a sociedade em geral se colocarem no lugar dos donos das carroças, abrirem um canal de diálogo, oferecerem alternativas a serem construídas em conjunto com estas pessoas, aí, sim, pode-se avançar nesta discussão. O que me remexe o estômago é que a mesma preocupação não se estende para as pessoas que estão puxando os carrinhos com os próprios braços. Sob o sol escaldante, sob a chuva, com os filhos às vezes na carroça, estas pessoas atrapalham o trânsito, sim, incomodam a vista. Mas não se pode fingir que elas não fazem parte da mesma sociedade, e que a gente não tem nada a ver com isso. A gente tem. E foi assim, pensando em Integridade e nestes donos de carroças, que me veio à cabeça esta história sobre gente e bichos.
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A história de Borracha
Os textos sobre a minha experiência com os moradores de rua do jornal Boca de Rua estão neste blog como uma espécie de confissão. Talvez eu não tenha noção ainda do nível de aprendizado que tive com eles. Mas esta história das carroças, de homens puxando cargas, em vez de bichos; de gente jovem morrendo em vida – ou superando a morte com dignidade e integridade - me remete a minha própria história.
Meu pai tem um olho que, como diz a música de Chico Buarque, “tem um olho sempre a boiar, e outro que agita” porque recebeu um coice, quando menino, de um cavalo chamado Borracha. Julio (meu pai) buscou na memória de sua infância como o bicho ganhou este nome – ao subir as lombas da cidade, puxando a carroça de ferro-velho de meu avô Pedro, o cavalo se esticava tanto, mas tanto, que parecia ser feito de borracha.
A família era pobre, e se virava para se manter economicamente. A religião era o ponto de apoio mais forte, e a perseverança de minha avó Berta o pilar que sustentava a todos. Comprar e vender ferro-velho era então uma profissão tão digna e necessária quanto a reciclagem, isso que naquela época nem se tinha noção dos danos que o meio ambiente – e o ser humano, por conseqüência – viriam a sofrer.
Pois teve um dia que o vô adoeceu. Borracha teve de ser vendido para pagar as contas. E os meninos (Julio e José, os mais velhos), tiveram que trabalhar sozinhos para manter o menorzinho Luiz alimentado, e ajudar a trazer dinheiro para a casa.
Foi vendendo cabides que eles chegaram à faculdade de Medicina. Se revezaram nas festas de formatura pra ver quem usaria o sapato sem furo, a roupa menos puída. Conquistaram diplomas, um nível melhor de vida, criaram filhos e netos com a mesma dignidade e integridade de Pedro e seu cavalo Borracha.
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Em vez de proibir, argumentei que, se as autoridades e a sociedade em geral se colocarem no lugar dos donos das carroças, abrirem um canal de diálogo, oferecerem alternativas a serem construídas em conjunto com estas pessoas, aí, sim, pode-se avançar nesta discussão. O que me remexe o estômago é que a mesma preocupação não se estende para as pessoas que estão puxando os carrinhos com os próprios braços. Sob o sol escaldante, sob a chuva, com os filhos às vezes na carroça, estas pessoas atrapalham o trânsito, sim, incomodam a vista. Mas não se pode fingir que elas não fazem parte da mesma sociedade, e que a gente não tem nada a ver com isso. A gente tem. E foi assim, pensando em Integridade e nestes donos de carroças, que me veio à cabeça esta história sobre gente e bichos.
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A história de Borracha
Os textos sobre a minha experiência com os moradores de rua do jornal Boca de Rua estão neste blog como uma espécie de confissão. Talvez eu não tenha noção ainda do nível de aprendizado que tive com eles. Mas esta história das carroças, de homens puxando cargas, em vez de bichos; de gente jovem morrendo em vida – ou superando a morte com dignidade e integridade - me remete a minha própria história.
Meu pai tem um olho que, como diz a música de Chico Buarque, “tem um olho sempre a boiar, e outro que agita” porque recebeu um coice, quando menino, de um cavalo chamado Borracha. Julio (meu pai) buscou na memória de sua infância como o bicho ganhou este nome – ao subir as lombas da cidade, puxando a carroça de ferro-velho de meu avô Pedro, o cavalo se esticava tanto, mas tanto, que parecia ser feito de borracha.
A família era pobre, e se virava para se manter economicamente. A religião era o ponto de apoio mais forte, e a perseverança de minha avó Berta o pilar que sustentava a todos. Comprar e vender ferro-velho era então uma profissão tão digna e necessária quanto a reciclagem, isso que naquela época nem se tinha noção dos danos que o meio ambiente – e o ser humano, por conseqüência – viriam a sofrer.
Pois teve um dia que o vô adoeceu. Borracha teve de ser vendido para pagar as contas. E os meninos (Julio e José, os mais velhos), tiveram que trabalhar sozinhos para manter o menorzinho Luiz alimentado, e ajudar a trazer dinheiro para a casa.
Foi vendendo cabides que eles chegaram à faculdade de Medicina. Se revezaram nas festas de formatura pra ver quem usaria o sapato sem furo, a roupa menos puída. Conquistaram diplomas, um nível melhor de vida, criaram filhos e netos com a mesma dignidade e integridade de Pedro e seu cavalo Borracha.
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sábado, 9 de fevereiro de 2008
Histórias do Boca de Rua - oficina de Serigrafia
Em 2003, foi realizada uma experiência de oficina de serigrafia com alguns integrantes do jornal Boca de Rua. As camisetas com o logotipo do jornal foram vendidas durante o Fórum Social Mundial, em Porto Alegre.
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