sábado, 9 de fevereiro de 2008

Histórias do Boca de Rua 6 - Neri



Neri, da percussão à serigrafia

Neri Martins Carvalho poderia ter sido músico, talvez. Tirava sons incríveis da boca imitando instrumentos de percussão e tinha prazer em cantar – de certa forma, foi ele quem primeiro incorporou o Rap do Mercedez à lista das músicas cantadas pelo grupo de hip hop formado por integrantes do jornal Boca de Rua. Estava no primeiro grupo de rap formado pelo Boca e se apresentou mais de uma vez representando a turma (no vídeo do You Tube ele aparece com os amigos do Boca de Rua: Alex, Gilmar e Alexandre).
Tinha tino para negócios. Era um dos melhores vendedores do jornal, porque possuía uma lábia para convencer seus leitores a comprarem seus exemplares como ninguém. Foi ele quem sugeriu que as camisetas e outros objetos com o símbolo do Boca de Rua virassem uma grife. A idéia não foi levada adiante, mas o interesse pela marca era evidente.
O símbolo do Boca – uma bocarra vermelha escancarada e o nome do jornal entre dois símbolos de igualdade – havia sido criado por Riquinho, um ex-integrante do jornal. Foi estampado em camisetas mais de uma vez. Na primeira delas, em camisetas brancas doadas para a ONG Alice para fazer os uniformes do grupo usados nas palestras, conferências e em outros encontros em que integrantes do Boca estavam presentes vendendo o jornal ou falando sobre o trabalho.
As primeiras camisetas foram entregues para os integrantes do Boca de Rua com o compromisso de que eles mesmos as guardassem. Mas na rua, ou parando em casas de passagem, camisetas se perdem, são trocadas por outros artigos de necessidade mais imediata, ou são roubadas.
No 1º Fórum Social Mundial de que participaram, em 2001, eu levava estas camisetas para casa, lavava (o grupo era pequeno, eram umas quatro pessoas, no máximo) e trazia no dia seguinte, limpas e passadas, para que as colocassem de novo. Era o uniforme deles – tinham de estar apresentáveis, eu pensava. E na rua não tinham jeito de fazer isso de um dia para o outro.
A grife quase vingou. Um instrutor de serigrafia que dava aulas para um grupo de garotos da Febem, Edinilson, topou fazer uma experiência com o Boca de Rua. A idéia era usar a serigrafia, que também utiliza elementos da comunicação, como outra possibilidade de geração de renda. Se os integrantes do Boca de Rua fizessem as próprias camisetas do uniforme e outras roupas e cartazes que eventualmente poderiam vender, estariam não só ocupando o tempo ocioso, como se especializando num outro trabalho, além do jornal, que lhes afastaria mais tempo de drogas e da violência das ruas. Esta era a proposta.
O instrutor de serigrafia topou o desafio. Era preciso levar a turma de interessados com pulso firme – eles iriam lidar com tinta, solvente, precisavam ter disciplina, freqüência. E estariam aprendendo algo novo.
As imagens do vídeo registrando esta experiência são emocionantes (uma delas está no You Tube - Neri aparece no final, carregando camisetas). Eles trabalharam em serigrafia, produziram suas próprias camisetas e as venderam durante o Fórum Social Mundial.
Vencida esta etapa, a seguinte era levar adiante a combinação do que fazer com o dinheiro da venda. Haviam combinado que os primeiros trocos seriam reinvestidos no projeto de serigrafia, para comprar mais tinta e dar continuidade ao trabalho.
No final do evento, praticamente todas as camisetas haviam sido vendidas. Foi um sucesso. Mas apenas dois deles retornaram com uma parte do dinheiro combinado para reinvestir no projeto. O grupo ainda não havia amadurecido para ir adiante nesta etapa. Precisavam de mais tempo.
O projeto da serigrafia não continuou. Um dos motivos, na época, foi porque o instrutor ficou desempregado e teve de buscar outras atividades. Trabalho voluntário seria pedir-lhe demais quando ele estava preocupado com a própria sobrevivência.
As telas com o desenho do logotipo do Boca de Rua estão guardadas na sede da Alice. Quem sabe um dia o sonho da grife proposto por Neri ainda vire realidade.

CENA 1

Neri e L., sua namorada, estavam no meu carro. Íamos para o Hospital Presidente Vargas ver o bebê do casal, que havia nascido com problemas. Como a mãe usava drogas e vivia na rua, havia ainda o risco de o casal perder a guarda da criança.
Só notei que uma viatura da polícia estava me dando sinal para parar quando ela chegou mais próximo do meu carro. Os policiais haviam visto Neri e L. maltrapilhos dentro do carro, e acharam que eu estava a perigo, sendo ameaçada por marginais. Parei o carro, mostrei a pilha de jornais que sempre carregava no porta-malas, expliquei o projeto, e disse que estava tudo bem, Neri e L. faziam parte da equipe. Ele riu muito do episódio. Estava acostumado com a discriminação. Eu não.


CENA 2

Neri fez parte das primeiras turmas do Boca de Rua que participaram do Fórum Social Mundial em Porto Alegre.
No 1º Fórum Social Mundial, os vendedores do Boca de Rua venderam a primeiríssima edição do jornal. O interesse do público era enorme, os elogios constantes aos textos que eles podiam afirmar com segurança que eram feitos por eles mesmos. Estavam todos satisfeitos, orgulhosos, felizes por terem ganhado uma boa quantia em dinheiro e terem sido valorizados e recebidos carinhosamente dentro do espaço de uma universidade (PUCRS) à qual eles nunca tinham tido acesso daquela forma. Não haviam esmolado. Tinham trabalhado, e muito.
No final do dia, eles mal se continham de alegria. Tinham vivido sob uma nova identidade de grupo, vestidos com a camiseta do Boca de Rua.
Eu os havia trazido de carro. No porta-malas, no estacionamento da PUCRS, haviam ficado os pertences que sempre carregam pela rua: camisetas que vestiam antes de pôr o uniforme, restos de comida, e a garrafinha com o loló, companheiro do dia-a-dia.
Terminado o trabalho do dia, recolhemos a banca improvisada em frente ao prédio 41 da PUCRS, e seguimos em direção ao estacionamento. Eles estavam distraídos, comemorando as vendas e discutindo o que iriam fazer com o dinheiro. Em determinado momento, olhei pra trás, e vi um bando de policiais da Brigada Militar nos seguindo.
Ninguém do Boca de Rua usava crachá de participante do Fórum, e nem nós havíamos pedido autorização para montar nossa banquinha para vender o jornal ali.
Os policiais talvez não compreendessem a importância do momento para o grupo. Os vendedores do Boca de Rua seriam humilhados se os guardas os parassem para pedir identidade e esclarecimento sobre quem eram, o que estavam fazendo ali e por que –aliás, como era de praxe quando estavam na rua. Seriam revistados porque eram um grupo “diferente” dos estudantes e estrangeiros que circulavam pelo local.
“Esqueci de uma coisa, vamos ter de voltar”, eu disse, com medo de que, se nos afastássemos muito do local onde estava o público do Fórum Social Mundial, e se os guardas fossem conosco até o estacionamento, ficaríamos longe das pessoas que poderiam nos dar apoio por estar ali. Pior: o dia dos felizes integrantes do Boca de Rua teria sido destruído pelo preconceito e pela humilhação de serem discriminados e vasculhados como suspeitos.
Deixei o grupo na frente do prédio 41, sem que eles tivessem notado o que estava acontecendo. E fui direto à sala de imprensa onde estava o fotógrafo Luiz Abreu, chefe da fotografia, e marido de Rosina Duarte, também jornalista do grupo. Abreu não titubeou quando soube do ocorrido. Dependurou a máquina fotográfica no pescoço e nos acompanhou até o estacionamento.
Nesse ínterim, Rosina se uniu a nós na comitiva. Com aquela super câmera de Abreu nos abrindo caminho, chegamos ao estacionamento, sãos e salvos. Conseguimos sobreviver a esta situação e chegamos a acreditar que um outro mundo realmente era possível, pelo menos enquanto a polícia não alcançasse os vendedores do Boca novamente.

CENA 3

Neri foi morrendo aos poucos. Foi definhando e deixando o sorriso maroto e bonito ficar banguela, resultado das brigas na rua. Passou um tempo sem vir às reuniões do Boca. Fugiu do hospital e morreu em 9 de junho de 2005, aos 23 anos de idade, exatamente uma semana depois de Alca. Descobrimos depois de sua morte que ele tinha família em Caxias do Sul e foi lá que o enterraram. Junho de 2005 foi o mês mais triste da história do Boca de Rua. Neri e Alca não estavam mais conosco.

Um comentário:

natalia. disse...

Clarinha,

o teu blog é tão bonito, me emociona sempre. Não deixa nunca de escrever essas histórias tuas/nossas/deles.